A miserabilidade na condição de vida de grande parte da
população cigana da etnia calon no Brasil tem sido um ponto constantemente
discutido nas redes sociais, em jornais, revistas, etc. Tal situação vem
contrariando o texto constitucional explícito na Carta Magna Federal, onde
preconiza em suas cláusulas Pétreas, nos seus setenta e poucos incisos.
(A cláusula pétrea é parte do texto constitucional explícito
no art 5º da CF, que relada entre outros “os direitos e garantias fundamentais
individuais e coletivos”, que não pode ser alterado).
Metaforicamente a lei parece não existir, pois a dificuldade
de inserção de políticas públicas direcionadas as comunidades ciganas, é
grande. São essas comunidades, as mais carentes de reconhecimento dos seus
direitos e deveres perante a sociedade. É fato que não há como inserir
políticas públicas sem a participação dos governos (Municipal, Estadual e
Federal), mas é sabido que sem o povo não há governo, então, qual a
justificativa plausível para as inúmeras publicações de ciganos em condições de
extrema pobreza e miséria em um país que tanto se fala em inclusão social?
A situação é semelhante em várias localidades no Rio Grande
do Norte, independente de rancho (ciganos que moram em casas) ou
acampamentos(ciganos que moram em barracas), onde poucos ciganos têm acesso à
assistência social de fato.
A saúde é precária no geral, mas na questão cigana além da
precariedade, existe o preconceito institucional, que afasta o cigano no
momento da necessidade de atendimento, quando isso acontece, o cigano não sabe
a quem reclamar, se constrange, e vai embora revoltado, e sem entender nada.
A educação não é diferente, observamos que no máximo dois
ciganos chegam até a Universidade, as crianças são arredias, muitas não
conseguem chegar ao ensino médio, e quando o fazem, é com extrema dificuldade.
Com relação aos adultos, grande parte dos ciganos, são parcial ou totalmente
analfabetos, o que dificulta a empregabilidade, seja autônoma ou não. com isso,
a sustentabilidade fica gravemente comprometida aumentando o índice de
dependência química, seja por medicamentos antidepressivos, ou até mesmo pelo
consumo de drogas lícitas (bebidas e cigarros) e ilícitas também.
A habitação é algo delicado de ser tratado, seja em ranchos
(casas) ou em acampamentos (barracas), as condições de moradia são extremamente
precárias, sem condições mínimas de sobrevivência, e ainda há uma dificuldade
grande em se alugar casas, que em algumas cidades os jurens (não ciganos) não
alugam a ciganos.
Tal ação costumo chamar-la de efeito descriminação, pois
desencadeia vários outros após ele, como um efeito dominó, que empurra uma
necessidade a outra de forma negativa e desprovida de defesa. mas que causa
efeitos catastróficos culturalmente falando.
O fato de não "criar raízes" devido as
perseguições etnicorraciais é uma cultura agrafa(passada dos pais para os
filhos) ou seja, de certa forma uma cultura flutuante no quesito
normandismo.
Da cultura mesmo, pouca coisa restou, acabaram-se as grandes
turmas, que negociavam animais, que viviam das trocas e negociações, sobrou ao
cigano vender pequenos objetos nas feiras; um relogio, um celular, ou coisas do
gênero, uma vez por semana.
Os belos e longos cabelos das ciganas de antigamente, hoje
são substituídos aos poucos pelos cortes modernos cada vez mais curtos, Os
lindos e rodados vestidos ciganos, aos poucos são substituídos pelas roupas de
jurins (não ciganas), as ciganas mais jovens não praticam a leitura de mãos,
pois não gostam de serem apontadas nas ruas, então essa tarefa fica a cargo das
ciganas mais velhas, que trazem diariamente o sustento das famílias, com a arte
do drab/drabarimôs (leitura de mãos). não vemos hoje em dia, os casamentos
pomposos de mais de uma semana em festas, como antigamente. mas a essência do
cigano permanece a mesma, pois todos eles sentem a falta dos tempos que não
voltam mais, onde se recordam saudosos com os olhos cheios de lágrimas.
O povo cigano necessita urgentemente da inclusão social, sob
pena de perca cultural total. obviamente, com o cuidado de quem cuida de uma
joia rara, respeitando suas especialidades culturais, pois a inclusão de forma
radical é o mesmo que mutilá-los, pois limita a sua liberdade, o que é extremamente
precioso para o cigano.
A cultura cigana faz parte do cigano assim como um membro
que não deve ser separado do seu corpo. É necessário tratar situação de forma
desigual com a finalidade de estimular o nivelamento étnico-racial em nosso o
país.
A cidadania cigana é acima de tudo a respeitabilidade de um
povo milenar, que carrega um grande sofrimento marcado em sua alma, que nada
diz em palavras, mas que fala pelo olhar.
Iniciar um diagnóstico real da situação, é um grande passo
para a erradicação do preconceito, contribuindo com o desenvolvimento
socioeconômico de um povo marginalizado pelo desconhecimento dos jurens (não
ciganos), e até pela falta de respeito e reconhecimento da cultura de um povo,
que muito contribuiu na construção do país.
O povo cigano, é um povo que resiste ao tempo, que se
acostumou a apanhar calado, sem reclamar. e que em alguns casos se sente
anestesiado de dor, pois se acostumou com o sofrimento. É notável que o povo
cigano é inteligente, e como dizia vovó, "tirar leite de pedra”, ou seja,
“é de uma sabedoria monstra” (gíria de rancho) e sabe sobreviver em meio as
dificuldades, mas que expressa em seu olhar a dureza do sofrimento que sentiu
com as pancadas na alma.
Diana
(Obra de minha autoria devidamente registrada).