quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ciganos do Rio Grande do Norte, um povo "sem"...


A miserabilidade na condição de vida de grande parte da população cigana da etnia calon no Brasil tem sido um ponto constantemente discutido nas redes sociais, em jornais, revistas, etc. Tal situação vem contrariando o texto constitucional explícito na Carta Magna Federal, onde preconiza em suas cláusulas Pétreas, nos seus setenta e poucos incisos.

(A cláusula pétrea é parte do texto constitucional explícito no art 5º da CF, que relada entre outros “os direitos e garantias fundamentais individuais e coletivos”, que não pode ser alterado).

Metaforicamente a lei parece não existir, pois a dificuldade de inserção de políticas públicas direcionadas as comunidades ciganas, é grande. São essas comunidades, as mais carentes de reconhecimento dos seus direitos e deveres perante a sociedade. É fato que não há como inserir políticas públicas sem a participação dos governos (Municipal, Estadual e Federal), mas é sabido que sem o povo não há governo, então, qual a justificativa plausível para as inúmeras publicações de ciganos em condições de extrema pobreza e miséria em um país que tanto se fala em inclusão social?

A situação é semelhante em várias localidades no Rio Grande do Norte, independente de rancho (ciganos que moram em casas) ou acampamentos(ciganos que moram em barracas), onde poucos ciganos têm acesso à assistência social de fato.

A saúde é precária no geral, mas na questão cigana além da precariedade, existe o preconceito institucional, que afasta o cigano no momento da necessidade de atendimento, quando isso acontece, o cigano não sabe a quem reclamar, se constrange, e vai embora revoltado, e sem entender nada.

A educação não é diferente, observamos que no máximo dois ciganos chegam até a Universidade, as crianças são arredias, muitas não conseguem chegar ao ensino médio, e quando o fazem, é com extrema dificuldade. Com relação aos adultos, grande parte dos ciganos, são parcial ou totalmente analfabetos, o que dificulta a empregabilidade, seja autônoma ou não. com isso, a sustentabilidade fica gravemente comprometida aumentando o índice de dependência química, seja por medicamentos antidepressivos, ou até mesmo pelo consumo de drogas lícitas (bebidas e cigarros) e ilícitas também.

A habitação é algo delicado de ser tratado, seja em ranchos (casas) ou em acampamentos (barracas), as condições de moradia são extremamente precárias, sem condições mínimas de sobrevivência, e ainda há uma dificuldade grande em se alugar casas, que em algumas cidades os jurens (não ciganos) não alugam a ciganos.

Tal ação costumo chamar-la de efeito descriminação, pois desencadeia vários outros após ele, como um efeito dominó, que empurra uma necessidade a outra de forma negativa e desprovida de defesa. mas que causa efeitos catastróficos culturalmente falando.

O fato de não "criar raízes" devido as perseguições etnicorraciais é uma cultura agrafa(passada dos pais para os filhos) ou seja, de certa forma uma cultura flutuante no quesito normandismo. 

Da cultura mesmo, pouca coisa restou, acabaram-se as grandes turmas, que negociavam animais, que viviam das trocas e negociações, sobrou ao cigano vender pequenos objetos nas feiras; um relogio, um celular, ou coisas do gênero, uma vez por semana. Os belos e longos cabelos das ciganas de antigamente, hoje são substituídos aos poucos pelos cortes modernos cada vez mais curtos, Os lindos e rodados vestidos ciganos, aos poucos são substituídos pelas roupas de jurins (não ciganas), as ciganas mais jovens não praticam a leitura de mãos, pois não gostam de serem apontadas nas ruas, então essa tarefa fica a cargo das ciganas mais velhas, que trazem diariamente o sustento das famílias, com a arte do drab/drabarimôs (leitura de mãos). não vemos hoje em dia, os casamentos pomposos de mais de uma semana em festas, como antigamente. mas a essência do cigano permanece a mesma, pois todos eles sentem a falta dos tempos que não voltam mais, onde se recordam saudosos com os olhos cheios de lágrimas.

O povo cigano necessita urgente da inclusão social, sob pena de perca cultural total. obviamente, com o cuidado de quem cuida de uma joia rara, respeitando suas especialidades culturais, pois a inclusão de forma radical é o mesmo que mutilá-los, pois limita a sua liberdade, o que é extremamente precioso para o cigano.

A cultura cigana faz parte do cigano assim como um membro que não deve ser separado do seu corpo. É necessário tratar situação de forma desigual com a finalidade de estimular o nivelamento etnicorracial em nosso o país. 

A cidadania cigana é acima de tudo a respeitabilidade de um povo milenar, que carrega um grande sofrimento marcado em sua alma, que nada diz em palavras, mas que fala pelo olhar.

Iniciar um diagnóstico real da situação, é um grande passo para a erradicação do preconceito, contribuindo com o desenvolvimento socioeconômico de um povo marginalizado pela desconhecimento dos jurens (não ciganos),e até pela falta de respeito e reconhecimento da cultura de um povo, que muito contribuiu na construção do país.

O povo cigano, é um povo que resiste ao tempo, que acostumou-se a apanhar calado, sem reclamar. e que em alguns casos se sente anestesiado de dor, pois se acostumou com o sofrimento. É notável que o povo cigano é inteligente, e como dizia vovó, "tira leite de pedra"ou seja, “é de uma sabedoria monstra” (gíria de rancho) e sabe sobreviver em meio as dificuldades, mas que expressa em seu olhar a dureza do sofrimento que sentiu com as pancadas na alma.

Diana

(Obra de minha autoria devidamente registrada).

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